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C O N T E X T U A L I Z A Ç Ã O     H I S T Ó R I C A

Cidade de Guaíra - Estado do Paraná
Colégio Estadual Mendes Gonçalves - EFMP

Antes mesmo da chegada de Cristóvão Colombo e Pedro Álvares Cabral na chamada “descoberta da América” - já havia uma estrada que ligava os Oceanos Atlântico ao Pacífico. Ela integrava o Brasil, o Paraguai, a Bolívia e o Peru, cortando matas, rios, pântanos e cordilheiras, num percurso grandioso com aproximadamente três mil quilômetros – o caminho de “Peabirú”.



A palavra "Peabirú" significa caminho forrado, cujo radical "pé" ou "apé" significava na linguagem tupi trilha, caminho. Tratava-se de trilha de grandes proporções para a época revestida de uma gramínea nativa da América do Sul, como nos mostra em seu texto o cientista Reinhard Maack da Universidade Federal do Paraná, em 1959, definindo assim o caminho:


“Com mais de três mil quilômetros, o Peabirú era uma estrada indígena constituída em forma de rede. Muito de seus trechos possuíam características próprias. Suas medidas variavam muito, mas textos antigos falam de mais ou menos oito palmos de largura por quarenta centímetros de profundidade, e revestidos por um tipo de gramínea nativa da América do Sul, que impedia o mato de tomar conta da estrada”.




O caminho de Peabirú, utilizado pelos índios tupi-guarani na integração com outros povos do continente, é considerado por pesquisadores a mais importante via transcontinental da América do Sul, ligando o Atlântico ao Pacífico, unindo o litoral de Santa Catarina, do Paraná e de São Paulo ao litoral peruano atravessando o Brasil, Paraguai, Bolívia e Peru (Figura 1).

Embora não se tenha a rota exata, historiadores afirmam que o trecho paulista começava em São Vicente e Cananéia, e o trecho catarinense a partir de Massiambú, próximo a Florianópolis, seguindo até Barra Velha, penetrando daí o rio Itapocu. Cruzava o norte-nordeste catarinense, chegando ao Paraná, onde passava Castro e nas nascentes dos rios Ivaí e Cantu. Chegando ao médio Piquiri seguia por sua margem esquerda até cruzar o rio Paraná, acima de Guaíra. No Paraguai seguia por dois ramais que se juntavam na região do Chaco, seguindo até a serra de Santa Luzia, ao norte. Penetrava na Bolívia, passando por Cochabamba-Sucre-Potosi e então seguia pelo rio Desaguadero alcançando o lago Titicaca, onde voltava a ser via única, para seguir a Cuzco, a capital dos incas, com ramificações que alcançava o Pacífico.



O tronco principal deste caminho era próximo à foz do Rio Piquiri (Fig.2), onde os espanhóis mais tarde fundaram a Ciudad Real Del Guairá, em 1557. O pesquisador da Universidade Federal do Paraná, Professor Igor Chmyz, acredita que a Ciudad Real Del Guayrá tenha sido instalada pelos espanhóis em um entroncamento do caminho de Peabirú para funcionar como um forte, controlando idas e vindas, já que o mesmo não era utilizado apenas pelos espanhóis, mas também pelos portugueses.

Ao construir a Ciudad Real Del Guayrá (figuras 3), os espanhóis, tinham como objetivo inserir os índios tupis-guaranis, aproximadamente 200.000 que habitavam a região oeste do Paraná no sistema colonial, e impedir as penetrações portuguesas para oeste da Linha de Tordesilhas. O controle dessa região através do Caminho de Peabirú era fundamental na manutenção dos domínios espanhóis.

Fizeram uso deste Caminho os primeiros colonizadores e os desbravadores de origem européia, como Alvar Nunes Cabeza de Vaca, sendo ele um dos homens de posses e com capacidade de conquistar terras dos índios era encarregado pela coroa espanhola de inserir os índios no sistema colonial, que após aprenderem um ofício os índios pagariam uma taxa ou prestariam serviço a um senhor espanhol – sistema de encomendas. Alvar Nunes Cabeza de Vaca partiu do litoral de Santa Catarina com 250 homens, subiu pelo rio Itapocu e ultrapassou a Escarpa do mar, venceu os campos de Tindiquera (Araucária) e foi encontrar a linha tronco do Peabirú, seguindo rumo ao oeste do Paraná até o Paraguai. Tal proeza se deu pelo fato de ter conhecimento prévio do caminho e com a ajuda de índios guias.


No entanto o sistema de encomendas, que passou o índio a condição de escravo, encontrou forte resistência entremos nativos e também do governo do Paraguai. Hernando Arias Saavedra sugeriu ao governo espanhol que confiasse a pacificação e a conversão do indígena da região, aos padres da Companhia de Jesus, o que foi imediatamente aceita, porém sem sucesso.

Com a ineficiência dos métodos de catequização dos índios, que acabavam voltando às antigas práticas, os Jesuítas experimentaram nesta região do Guairá um novo sistema: as reduções - uma extraordinária organização hierárquica, da qual os índios participavam e respeitavam (Figura 5)


Da mesma forma como os portugueses organizavam as cidades no Brasil, às reduções espanholas possuíam um edifício principal que era a igreja, localizada na praça principal e as casas alinhadas formando quadras. Cada casa possuía uma varanda coberta e contínua, ligadas entre si de maneira que as pessoas pudessem se locomover pela cidade protegidos do sol ou da chuva. Nas missões Jesuíticas as casa eram de pedras retilíneas, separadas por corredores largos, os tetos eram de telhas, os muros tinham um metro de espessura. Essas habitações tinham uma chaminé e, as dependências juntavam-se aos outros aposentos. Mais além, ao redor da Missão trincheiras e um muro de defesa a protegiam contra os indígenas selvagens e os bandeirantes. Desta forma as reduções se consolidavam com sucesso, o que acabou causando temores aos luso-brasileiros de São Paulo, que temiam a expansão espanhola para o leste. A preação de índios para escravizar e a vontade de chegar até as minas de Potosi, levaram os paulistas a investidas violentas contra as reduções destruindo-as totalmente. Estas investidas na região do Guairá trouxeram para os bandeirantes paulistas muito mais que atividades preatórias, significaram a vitória dos portugueses sobre os espanhóis na luta pela conquista e posse do território.



Assim sendo, mesmo este território pertencendo aos espanhóis, desde o inicio do século XVI, Guaíra já possuía importância histórica, e nesta região foi fundada a Província Cristã Del Guayrá e se não fosse destruída pela ambição de colonizadores portugueses e espanhóis teria concretizado um grande sonho dos jesuítas: transformar as reduções do Guayrá em uma República Guarani.

Todo processo de ocupação e expansão territorial é movido por interesses econômicos, que se resumem na necessidade básica de sobrevivência de grupos que se fixam em determinadas áreas, como o oeste e noroeste do Paraná que economicamente não tinham muito a oferecer. Esta região e o Mato Grosso ficaram fora do processo econômico nacional ao longo dos séculos XVII, XVIII e praticamente toda metade do século XIX, vindo a ser habitada por colonizadores apenas no final deste século e início do século XX.

A região só começou a ser povoada, quando a família Murtinho, formada por políticos influentes, erradicada em Mato Grosso, de Cerro Cora –Paraguai – forneceu gêneros alimentícios aos soldados brasileiros na última batalha da Guerra do Paraguai – 1870- travada nesta localidade. Após a guerra, receberam por tal ato, do Imperador D. Pedro II, a concessão da exploração da erva mate pelo Decreto n. 8.799 de 09 de dezembro de 1822.

Francisco Murtinho, juntamente com seus dois sócios, o português Francisco Mendes Gonçalves e o gaúcho Thomaz Laranjeira, iniciaram a exploração da erva mate, em Campanário do Sul – Mato Grosso, nos ervais da Serra do Maracajú, e depois montaram uma fazenda modelo em Guaíra e nesta construíram o Colégio Mendes.

A construção, da fazenda-modelo, que deu origem a cidade de Guaíra, explica-se devido o sistema de transporte, com carroças, via Iguatemi-MT, até o Rio Paraguai ser lento e oneroso. A Companhia decidiu então utilizar o Rio Paraná para escoar a produção de erva-mate, adquirindo em 1902, do argentino Francisco Monjoli, que explorava madeira na região, os direitos de exploração do Porto Monjoli. Este porto mais tarde deu origem a uma vila denominada Guaíra (Hernest Mann).

A exploração da erva mate foi um sucesso, e com isso a companhia requereu junto ao governo do Estado do Paraná mais terras, justificando a implantação de uma nova estrutura administrativa e de transporte em Guaíra. No ano de 1913, a companhia tomou conhecimento do projeto de construção de uma ferrovia as margens do rio Paraná, imediatamente compraram trilhos e vagões dos concessionários da Inardi Alves Cia., firma anglo-brasileira que exportava madeira para a Inglaterra, e construindo assim 60 quilômetros de estrada de ferro entre Guaíra e Porto Mendes, desviando assim das Sete Quedas as quais foram inundadas pelo represamento das águas do Rio Paraná, com a construção da Usina de Itaipu no ano 1982 (Figura 6), e transportando a erva mate até o Porto de embarque que por vapor descia o rio Paraná até a Argentina, onde era industrializada e comercializada.



Afirma Ruy Christovam:

“Esta frente extrativa de erva-mate era, pois de capital argentino, mão-de-obra paraguaia e matéria prima brasileira”.


A construção da estrada de ferro, trouxe a Guaíra o progresso: um hotel, armazém, escola (1919), clube, hospital, luz elétrica e telefone. As rendas da empresa no ano de 1924 eram seis vezes maior que a receita do Estado, fazendo da cidade de Guaíra a maior cidade administrada por uma empresa, um Império do Mate.

Em sua monografia, Paulo Tomazinho conta que o revolucionário paulista João Cabanas em passagem pela região em 1924, fez a seguinte observação a respeitos dos trabalhadores dos ervais:

“Passados quatro dias, começou a chegar o pessoal, formando-se uma multidão de mais de mil indivíduos andrajosos, tendo cada um em si características da vida miserável que passavam sem os mais rudimentares cuidados de higiene; uns bestializados pelos maus tratos, riam alvarmente, olhar parado, em ponto fixo imaginário. A grande maioria, com artelhos deformados pelos bichos-do-pé, faces intumescidas pela ancilostomíase ou mal de chagas, moviam se lentamente, mulheres cabisbaixas, quase inconscientes, sofrendo idênticos males, deixando entrever, pelos rasgões das saias, pernas esquálidas....crianças com âmbar, ventre crescidos, sonolentas e tristes como velhos chineses desesperançados.”

Estes maus tratos foram denunciados em jornais de todo o Brasil com a passagem da Coluna Prestes pela região, e após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas (Figura 7) encampou a Mate Laranjeira eliminando os obrageros - proprietários de terras que tinham como trabalhadores os chamado mensus - do Oeste do Estado do Paraná.




REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

TOMAZINHO, Paulo Alberto. O Processo de Ocupação do sul de Mato Grosso e Noroestes do Paraná: A economia ervateira e a Companhia Mate Laranjeira S/A.(monografia do curso de Pós graduação em especialização de metodologia do ensino superior) Umuarama-1981.

MANN, Hernest, Guaíra, passado e presente. Obra não publicada que se encontra arquivada no CEPEDAL-Unioeste/Facimar Cap. Os guaranis

LAZIER, Hermógenes, Paraná: terra de todas as gentes e de muita história. Editora Grafit, 2003.

GUAZZELLI, Maristela Bridi. “REVITALIZAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE NOVA UNIDADE NO COLÉGIO ESTADUAL MENDES GONÇALVES – GUAÍRA/PR”  (Trabalho final de graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo) Umuarama-2006.


PAGINAS DA INTERNET CONSULTADA
http://www.cidadeguaira/indexvelho. Acesso em: 03/2006























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